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William Shakespeare não é especialmente caridoso ou simpático em relação à idade. As suas personagens mais velhas reflectem, em geral, uma disposição avessa à decrepitude, o que poderá considerar-se "normal", tendo em conta a sua época. No entanto, são inúmeras as reflexões sobre o desgaste do tempo nas várias idades do ser humano: o avanço da caducidade, a diminuição das faculdades físicas e psicológicas são motivo de preocupação e, também, pretexto para apontar uma e outra característica ridícula e até cruelmente cómica . Em "Como lhe Aprouver" (As You Like It - 2.7.143-70), através de Jacques - um beberrão que tanto fala como um bruto como diz coisas de uma beleza inaudita -  compara o mundo a um palco e os homens e mulheres a meros actores com as suas entradas e saídas; e continua a definir as várias (e famosas 7) fases da vida, desde a mais tenra infância nos braços da ama "a sugar e a beliscar", passando pelo estudante, o amante impetuoso, o soldado dado à luta, o justo com a sua barriga protuberante e a sua seriedade, até à velhice, "uma segunda meninice sem memória, sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem tudo." ( ver excerto no fim do texto, p.f.). Mas é claro que duas das suas mais famosas criações de velhos insuportáveis são o Rei Lear e Fastaff, tão diferentes entre si como a Lua e o Sol. O drama Rei Lear - uma figura baseada num semi-lendário rei celta, Leir of Britain - conta a história de um poderoso monarca e a sua queda. É triste, sinistro, patético e delirante. Harold Bloom diz que Lear é o protótipo do D.W.E.M., o Dead White European Male, o macho alfa (branco e europeu) que entra numa espiral de decadência, demorando a morrer e irrompendo com feroz teimosia, aqui e ali, um pouco por toda a parte, na literatura e na cultura ocidental. Lear é o exemplo acabado do velho teimoso e vaidoso, despótico e maldoso. Apesar de a princípio reconhecer que a idade já não lhe permite governar eficazmente e que a "reforma" é aconselhável, o seu aparente bom senso transforma-se rapidamente em tolice sobre tolice e a suposta sabedoria que deveria ter acumulado com a idade, antes o arrasta para uma loucura que é fruto, apenas, das suas péssimas escolhas. Por sua causa há suicídios, guerras, traições e uma tragédia que não tem fim.

Quanto ao glorioso Falstaff, que nos delicia em nada menos do que três peças - Henrique IV, parte I e parte II e em As Alegres Comadres de Windsor -  com cada palavra proferida, com cada gesto traçado no espaço, a velhice é um pretexto para "filosofar": ele trava uma batalha feroz e permanente contra o tempo que, inexoravelmente, levará a melhor, mais cedo ou mais tarde. Mas, "enquanto dura vida e doçura" e o pantagruélico Falstaff não se coíbe de satisfazer os seus portentosos apetites, de se entregar a um alegre deboche e de desafiar a opinião comum - o príncipe Hal não mostra espanto se ele for morto por causa das suas ideias. O avançar da idade, para Falstaff impele-o a gozar a vida como se não houvesse amanhã, tornando-o imune ao medo de represálias da sociedade. Enquanto que Lear se deixa avassalar pela idade, perdendo o melhor que tinha - o amor da filha, o reino, a visão, a vida  - Falstaff, consciente da sua finitude, celebra o prazer de estar vivo. Duas visões que, com os seus aparentes contrastes, nos podem fazer pensar.

 

Jaques. All the world's a stage, 

And all the men and women merely players: 
They have their exits and their entrances; 
And one man in his time plays many parts, 
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms. 
And then the whining school-boy, with his satchel 
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad 
Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel, 
Seeking the bubble reputation 
Even in the cannon's mouth. And then the justice, 
In fair round belly with good capon lined, 
With eyes severe and beard of formal cut, 
Full of wise saws and modern instances; 
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon, 
With spectacles on nose and pouch on side, 
His youthful hose, well saved, a world too wide 
For his shrunk shank; and his big manly voice, 
Turning again toward childish treble, pipes 
And whistles in his sound. Last scene of all, 
That ends this strange eventful history, 
Is second childishness and mere oblivion, 
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything. 

As You Like It (2.7. 143-70) 

 

 


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2 comentários

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De Maria Julieta Sendas a 19.08.2013 às 12:46

os grandes escritores ensinam-nos sempre muita coisa!
Cá por mim tenho um carinho especial pelo Falstaff ... ( o meu avô era tão parecido...!)
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De Oldfox a 19.08.2013 às 13:52

Obrigada Julieta. Beijos

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