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CONFISSÕES I

13.12.13

Confissões I

Tinha uns dez, onze anos, quando decidi enveredar pela senda do Crime.

As senhoras da Mocidade Portuguesa percorriam o Liceu, aliciando-nos e prometendo fazer de nós (de mim) uma leal e robusta servidora da Pátria, uma saudável procriadora de mancebos e uma excelente dona-de-casa, obediente e fiel a um marido que certamente já se perfilava num horizonte "glorioso", decidido a oferecer-me óptimos electrodomésticos e uma vida recatada e cristã.

Mas eu não estava interessada.

Aquele "S" no cinto da fardamenta – duro, constrangedor, sinuoso e perverso – causava-me um certo incómodo, não explicável, uma vez que, como devem calcular, era muito ingénua e nada, mesmo nada, politizada.

Os meus pais, levemente pressionados, perguntaram-me a razão da recusa; eu fiquei na minha, fechei-me em copas e o assunto morreu por ali.

Em vez disso, tornei-me chefe de um gangue.

Em Lourenço Marques ( que hoje se chama Maputo) passava-se pouco tempo dentro de casa. As ruas eram largas e pacatas, os ruídos abafados pelas acácias luxuriantes. Estava calor. Nós, os miúdos, andávamos à solta. As aulas começavam às sete da manhã e o toque de saída era ao meio-dia, quando corríamos para a liberdade, para a piscina ou para a praia.

(Por baixo do uniforme da escola levava o fato-de-banho). Nadávamos e preguiçávamos ao sol. Acocorávamos – nos junto aos pescadores a vê-los tratar das redes ou a pintar os barcos. As alforrecas eram uma praga e quando acontecia ser atacada, um dos rapazes urinava docemente sobre a minha pele vermelha e irritada, trazendo um abençoado alívio.

As tardes alongavam-se, infinitamente. Havia pouco que fazer. O tédio apoderava-se de nós. A ideia de formar um gangue pareceu-nos aliciante. Eu lia muito, lia demais, tinha a cabeça cheia de aventuras e estava firmemente convencida que só a vida contada nos livros valia a pena ser vivida. Fizemos pactos de sangue – doía como o diabo abrir um sulco na mão com uma lâmina ferrugenta – e adoptámos nomes índios. Fui, durante uns tempos, a única rapariga do grupo, mais tarde destronada pela Nono, que era bem mais rápida e valente do que eu.

Não posso dizer que o gangue fosse sofisticado ou razoavelmente produtivo. As nossas acções, inventadas no momento, sem estudo estratégico preliminar, tinham a fraca dimensão da nossa (i)maturidade: entrávamos em casa de pessoas e roubávamos o que estava à mão - pastilhas elásticas, bolachas, coca-colas; corríamos a cidade de bicicleta, passando tangentes a velhinhas (como eu sou, agora); invadíamos os cinemas e instalávamo-nos sem pagar; descíamos até à Baixa e ocupávamos as pastelarias, onde nos empanturrávamos com bolos; dávamos "beijos de língua" uns nos outros; aterrorizávamos (pensávamos nós!) polícias, guardas e putos queixinhas; desobedecíamos aos nossos pais; atirávamos em latas, com a pressão de ar; descíamos as "barreiras", escorregando entre cactos e ervas daninhas; andávamos à pancada só pelo gosto a sangue e pó; subíamos às árvores e mandávamos fisgadas às pessoas que passavam. Também salvávamos animais abandonados e incluíamos os miúdos negros, filhos dos criados que trabalhavam nas nossas casas, nas nossas brincadeiras. Como bons bandidos, tínhamos uma lado filantrópico. E achávamos que estávamos a fazer uma grande coisa!

(Um parêntesis para recordar que, em Moçambique, não havia "apartheid" como na África do Sul, o que era aproveitado hipocritamente pela administração colonial como uma espécie de ascendente moral sobre os nossos vizinhos. No entanto as fronteiras entre brancos e negros estavam marcadas a traço grosso e eram bem visíveis. Nós, miúdos, sem conhecimento de causa, limitávamo-nos a ser "contra", a fazer algo que irritava ou incomodava as mentes bem pensantes e as figuras da autoridade.)

A minha mãe punha-me regularmente de castigo. Os nossos pais davam-nos sovas valentes. Gabávamo-nos muito de tudo aquilo.

Foi um tempo glorioso. Dava-me gozo mandar mas não quando me desobedeciam. Tinha de dar ordens àqueles miúdos ranhosos que só queriam dormir a sesta e enrolar cigarros com o tabaco de cachimbo que eu roubava ao meu pai; não pensavam verdadeiramente em nada. 

Não percebiam que tinhamos uma Missão.

(Rapazes!) 

Fartei-me depressa. 

Foi a primeira e a última vez que fiz parte de um grupo.


Helena Vasconcelos, Setembro, 2013

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1 comentário

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De Eduardo Pitta a 14.12.2013 às 09:19

Muito bom, querida Helena. Tens de pensar a sério em passar a volume as tuas memórias. Bem ou mal, fazemos parte de uma geração que foi a última de um certo mundo. Não digo que fosse um mundo melhor, mas era outro, e acabou definitivamente. Não faltará quem nos acuse de elitismo. É o lado para que dormimos melhor. Um beijo

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