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Esta, sou eu. Sem pinturas nem disfarces. Sem photoshop nem retoques. Estou velha. Uso óculos, o pescoço enruga-se maliciosamente, o formato do rosto altera-se, o queixo está uma lástima, às vezes acordo com uma mão dormente e já não consigo fazer o pino. Quando pratico Ioga - e não só - as articulações rangem e, por vezes, vejo-me aflita para voltar a uma posição "normal". Continuo a gostar de tudo o que me tem alimentado ao longo da vida: os afectos, as artes, a literatura, as viagens, as mudanças (para melhor).

Só me vai faltando a paciência, cada vez mais. Porque é difícil classificar o grau de estupidez de governantes que decidem – por incompetência, preguiça e outras incapacidades – cortar, diminuir os vencimentos de reformados e pensionistas. São obviamente medidas que só trazem desvantagens a um País, a um Estado. É verdade que o número de pessoas de idade aumenta, o que não é de admirar. Cada vez existem mais meios para prolongar a vida – as farmacêuticas, os construtores e inventores de material hospitalar agradecem e os milhões de milhões que são destinados à investigação comprovam, sem sombra de dúvida, que os seres humanos escolhem, inteligentemente, fazer mais e melhor por eles próprios e pelos seus semelhantes, para que gozem uma existência longa, de qualidade e feliz, nesta Terra. Nos países ditos "civilizados" a idade, para além de um repositório de experiência e de sabedoria, é uma mais valia e gera riqueza. Existem inúmeros sectores económicos que podem beneficiar exponencialmente com os reformados que possuem uma certa qualidade de vida: têm mais tempo para gastar, para fazer uma infinidade de coisas que não puderam fazer enquanto cumpriam horários e se ocupavam da sua vida profissional. Há tempo para viajar, para fazer turismo, para ensinar os outros, para fazer voluntariado, para ajudar quem precisa, para frequentar inúmeros cursos e actividades, para gastar dinheiro sem culpa - mais ou menos, de acordo com as possibilidades - enfim, para tirar partido de um sem-número de oportunidades que lhes passaram ao lado, enquanto jovens e de meia-idade. Se as pessoas trabalharam e descontaram para o Estado e se preparam para a segunda parte activa das suas vidas, qual a intenção de lhes colocar barreiras, de elevar muros cinzentos à sua frente? Quem ganha com isso? Ninguém. A quem interessa um País, uma comunidade, em que as pessoas de idade são marginalizadas e maltratadas? Um País em que os mais velhos vivem da caridadezinha ou têm de se privar de uma quantidade de coisas porque aquilo com que contavam lhes foi retirado à má fila?

Tenho especial horror e desprezo por quem trata as pessoas de mais idade como se fossem uns trastes, uns empecilhos, um peso.    Começamos a envelhecer no dia em que nascemos. Este nosso "invólucro mortal" como lhe chamou o grande senhor Shakespeare está em mutação desde sempre e principalmente quando soltamos o primeiro grito, quando inspiramos, pela primeira vez. Enquanto andamos por este mundo, a matéria de que somos feitas(os) move-se e remove-se em constante turbulência. No nosso corpo tudo está sempre a mexer-se a dividir-se, a multiplicar-se, a somar e a subtrair. Há torrentes, enxurradas, caudais, lagos e mares, montanhas e vales, tempestades, tsunamis, avalanches, florescimentos e aniquilações. O processo acumulativo de alterações de estruturas moleculares e celulares não pára. Por isso, tenham muito cuidado connosco. Andamos nisto há muito. Somos fortes e damos luta. Aprendemos com o tempo. Não nos tramem porque ganham mais connosco do que sem nós. Tenho dito!

Nota: tenho particular aversão por quem utiliza, com as pessoas de idade, inúmeros diminutivos, do género: coitadinho do velhinho que vai comer uma sopinha e dormir uma sestinha e antes vai fazer um xixizinho por causa da bexiguinha, etc, etc, etc…!!!!

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7 comentários

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Oldfox a 07.08.2013

Muito obrigada Ermelinda. Sim, em Moçambique, onde cresci -grande sorte, a minha- os mais velhos eram (são) respeitados e acarinhados. Um grande abraço.

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