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 AS BOAS PESSOAS


“…Somos boas pessoas. Somos mesmo muito boas pessoas. E não nos parece correcto que …”

 





A quarentona com o cabelo cheio de laca está claramente irritada e a voz esganiça-se-lhe, enquanto gesticula com a mão sapuda. Interrompe a sua oratória veemente quando me levanto e dou uns passos pela sala. O da pasta preta pousada no chão junto aos sapatos, sentado na ponta do sofá, não tira os olhos dos papéis desarrumados, presos numa prancheta. É um homem novo,  entediado e impaciente. Esperam que eu diga alguma coisa mas não lhes faço a vontade.

A mulher encolhe os ombros.

Saio da sala e oiço-os a sussurrar.

 

Ainda ontem estivemos sentados, debaixo do guarda-sol. No regresso da escola passo lá por casa e encontro-o no pátio das traseiras, ou na sala escura. Conversamos e dormitamos com abandono, na preguiça do meio-dia. Vejo as suas mãos, bonitas, expressivas, tisnadas pelo sol, as veias salientes, com manchas escuras, abandonadas placidamente no colo. São as mãos de um homem vigoroso de meia – idade. Ninguém lhe dá os oitenta e não sei quantos anos.

 

O tio Emílio é a única pessoa da família de quem gosto. Obviamente, ninguém da família gosta do tio Emílio. A aritmética do clã funciona assim: quando eu somo, eles subtraem, quando eles multiplicam, eu divido – e vice-versa.

- “O tio Emílio é um “velho biltre” um “mação, um huguenote”. O meu pai, homem responsável e médico respeitado, seu cunhado e inimigo figadal, é pródigo nos epítetos: Na sua mente está gravada a imagem ansiada de um Emílio morto e enterrado, com um colar de dentes de alho ao pescoço e uma estaca cravada no peito. Só para ter essa felicidade seria capaz de quebrar o julgamento de Hipócrates.

- “O tio Emílio não é socialmente aceitável” – declara o meu irmão mais velho, sempre ansioso por manter o seu território livre de quem eventualmente possa estragar-lhe a imagem de burguês mediano e irresoluto. “

- O Emílio é um irresponsável, adúltero, mentiroso e trapaceiro” – acode Matilde, a ex mulher que faz divinamente o papel de despeitada e que não repara – ou não quer reparar – que os mesmíssimos adjectivos se podem aplicar a ela própria.

- “O tio Emílio não merece o teu respeito” – afirma convictamente a minha mãe, a politizada da família – “…não é ideologicamente coerente. Lutou contra o fascismo, é bem verdade mas nunca pertenceu a nenhum partido, não se compromete. Desta forma não se conseguem vitórias. Principalmente quando precisamos, cada vez mais, de quem combata a direita, conscienciosamente."

 

A minha avó era uma romântica que sonhava constantemente com aventuras. Ficou em casa a tratar dos inúmeros filhos com um marido que foi um modelo de virtudes e um maçador impenitente. A este filho, o preferido, deu o nome do seu herói, Emílio Salgari, o escritor de Verona que, tal como ela, pouco viajou, imaginou tudo mas fê-la percorrer os Mares do Sul e o Oeste Selvagem com a força das palavras impetuosas, que ela lia alto para que o som reverberasse, magicamente, na sua cabeça, conjurando os odores, as temperaturas e as agruras das aventuras sem regresso. O tio Emílio faz justiça ao seu glorioso nome: é um anarquista irrequieto, um amante arrebatador, um pirata dos oceanos, um viandante incansável, um espertalhão que soube conciliar as oscilações de um mundo sempre em mudança com as suas crenças pessoais. Continua com uma saúde invejável, vigilante como uma ave de rapina, lúcido e sábio como Merlim. Com ele, a Natureza tem sido justa, num desses lapsos que acontecem, de vez em quando, mesmo na mais cruel das confrarias.

Para o Emílio não existem verdades absolutas. Entretém-se a questionar tudo com uma incansável firmeza, muito pouco apreciada por quem o conhece. Na Universidade, os alunos amavam-no pela sua excentricidade mas temiam a feroz argumentação que os fazia sentir perdidos, como se estivessem no meio do mar num barco a remos – sem remos.

Os deuses do tio Emílio são Bakunine, Burroughs e Bukowski, os três Bs da “bondade”, “beleza” e “briga” – em dias mais expansivos, junta-lhes Bellow e Beckett – e embora eu não partilhe todos os seus entusiasmos, gosto de o ouvir discorrer sobre as metamorfoses, sobre o estudo dos lepidópteros, sobre o crânio de Ofélia e a misantropia de Montaigne, enfim sobre o inesgotável absurdo da vida.

O tio Emílio adora histórias e anedotas, principalmente piadas com velhos e velhas. Para ele a velhice é uma anedota, uma partida de mau gosto. Ri-se. E cantarola: “ A vida é uma historieta contada por um idiota…” 

“…cheia de som e fúria, sem qualquer significado…” respondo, obedientemente.

“Ámen”, apressa-se a retorquir com um sorriso matreiro.

 

Tanto o meu pai como a minha mãe, um por ser católico, outra por ser comunista gostam de dizer, de afirmar, de demonstrar, de insistir com toda a gente que se deve viver desta ou daquela maneira. Seja a mando de Deus, seja a mando do Partido, existe um caminho bem alcatroado, sinalizado e com belas faixas brancas a delimitá-lo. Os atalhos, os caminhos serpenteantes e as auto-estradas intermináveis do Emílio não lhes oferecem a mínima confiança.

 

. O Emílio teve um filho que morreu em África. Na Guerra Colonial. “Um herói”, dizem, na família!

“Um idiota” diz o Emílio, de rosto cerrado, “um perfeito idiota”.

Já lá vão uns quarenta anos.

 

As histórias e anedotas sucedem-se em catadupa sobre os seus temas preferidos: casas de repouso, (“que raio de designação! Quem é que quer repousar, nesta altura?”), cemitérios, funerais, sexo senil, Viagra, roupa interior, humilhações. Eu rio-me, enquanto ele se embrenha alegremente na sua escatologia pessoal, no seu teatro do absurdo: faz caras, esgares, fala com a respiração entrecortada – “como os velhinhos” – ensaia estertores de morte, faz gestos obscenos, dança à minha frente com uma agilidade surpreendente. Para ele, a morte é um “parque de diversões noutra dimensão”.

(“Por favor não deixes que me reduzam a cinzas. Quero dançar com as minhocas”)

É como estar a ver um filme dos Monty Phyton com uma mãozinha do Tarantino.

 

A casa do tio Emílio é um rés-do-chão atulhado de livros num edifício vulgar, em Lisboa, construído nos anos quarenta. Agora é considerada zona nobre, as rendas subiram e o invisível e ameaçador senhorio deseja intensamente que o tio Emílio morra com a brevidade que se impõe em matéria tão sensível.

O pátio das traseiras é o nosso poiso favorito. Todos os vizinhos e vizinhas dos prédios do quarteirão nos podem ver, basta assomar às janelas. O que acontece com frequência.

Gatos dos telhados, de todas as cores e feitios, vêm ronronar e esfregar-se nas nossas pernas. Os pátios das outras casas mostram o cuidado dos seus habitantes: plantas, vasos, estrados, toldos, objectos inúteis. No pátio do meu tio só há duas cadeiras de plástico, um prato com comida e uma taça com água para os gatos, e uma grade de cervejas eternamente reabastecida e utilizada para o propósito bem prático de apoiar os pés. O guarda-sol que lhe comprei, para termos alguma privacidade, está grotescamente partido porque ele se esquece de o fechar, em dias de temporal. O pátio do tio Emílio não tem grande aspecto. Quando chove, ervas daninhas irrompem por todo o lado, nas fissuras das lajes partidas e cheias de musgo escorregadio que, no verão, ganham uma cor acinzentada e escaldam. Os vizinhos não gostam.

Espreitam cá para baixo, fazem cara feia e depois fecham as janelas com estrondo. O minimalismo do tio Emílio complica-lhes com os nervos.

 

Foram os vizinhos que chamaram a Segurança Social. O tio Emílio leva um rádio para o pátio, põe a cassete de Zorba, o Grego e dança todo nu, enquanto bebe e canta. As queixas sucedem-se. Ontem, quando tocaram à campainha, Emílio abriu a porta e três matulões saltaram-lhe em cima e começaram a espancá-lo.

É fácil bater num velho de oitenta e muitos anos.

É canja dar cabo de um velho insuportável, barulhento e sozinho. Até tem graça entrar por ali dentro e desatar aos pontapés e aos murros a um palerma de um velho.

Toda a gente sabe que os velhos vivem à conta e não servem para nada. Este velho devia estar sossegadinho dentro de portas em vez de dar espectáculo e de chatear as pessoas.

Este velho de merda nem tem nada de jeito, só livros e papel, o cabrão! Um velho mariconso que se despe em frente de gente de bem é porque quer levar porrada da grossa!

(Mais uns minutos e ainda lhe sacamos a televisão e o telemóvel.)

 

Mas as coisas não correram como previstas: o corpo rijo do tio Emílio, besuntado de Pizbuin, escorregou-lhes das patorras e escapou-se como uma enguia para o quarto. Quando arrombaram a porta ele estava à espera com uma espada de samurai numa mão e um revólver Colt Anaconda, na outra. Atirou para o ar e avançou de espada em riste. Rasgou um braço ao mais afoito, ignorou o que se atirou para o chão a chorar e perseguiu o terceiro pela rua acima com a espada em riste. A vizinhança acorreu, com o firme propósito de o lincharem. Chegou o 112. Mas o tio Emílio desaparecera na noite.

 

As “boas pessoas” na minha sala têm a certeza de que ele vai ser preso. As pessoas boas na minha sala estão indignadas. Querem que o tio Emílio seja “tratado”. Querem vigiá-lo. Querem o bem dele. Querem recuperá-lo para a sociedade. Querem que ele seja um velhinho bonzinho e sossegadinho num cantinho do asilo psiquiátrico. São pessoas muito boas e muito sérias, com certezas muito enraizadas.

Volto da cozinha e digo com firmeza que não sei do tio Emílio nem quero saber. Peço-lhes educadamente que se vão embora e me deixem em paz.

 

Fecho a porta nas costas das boas pessoas, da senhora da laca e do rapaz de preto. Devolvo-os à rua onde vão continuar à procura do tio Emílio. Subo as escadas e entro no meu quarto. O tio Emílio está refastelado na minha cama, em cuecas e com as botas calçadas, a fazer zapping pelos canais pornográficos. O cão dorme encostado a ele.

Rio-me entre dentes e fecho a porta sossegadamente. Entendemo-nos, eu e ele. O sofá da sala espera-me. Sabe-se lá por quanto tempo.

 

Helena Vasconcelos

Dezembro, 2012.

 

 

The Good People

Helena Vasconcelos

 

“We are good, decent people. We really are. And it doesn’t seem fair…”

The woman in her forties, mottled hair tangled and stiff with hairspray,  is clearly annoyed and her voice rasps while she waves aimlessly her chubby pink hand in the air. I get up, walk across the living room, and she stops her heated rant. The man sitting on the edge of the couch, with the black briefcase standing like a wall on the floor next to his blacker shoes, doesn’t avert his eyes from some papers, randomly stuck on a clipboard. He is still young, dishevelled, bored and impatient. They wait for me to say something, but I don’t comply.

The woman shrugs.

I leave the room and hear them whispering.

 

Yesterday we were sitting under the sun, barely protected by a dilapidated  umbrella . I always stop by his house on the way back from school, and find him in the backyard or in the dimmed living room. We talk and slumber with detachment, in noon’s laziness. I marvel over his hands, peacefully abandoned in his lap, tanned, expressive, soft veins bulging, beautifully tarnished by dark spots.  These are the hands of a vigorous man. No one will guess he’s almost ninety.

 

Uncle Emilio is the only person in the family whose company I appreciate. It’s obvious that no one in my vast and complex family likes Uncle Emilio. The tribe’s math works like this: when I add, they subtract; when they multiply, I divide – and vice versa.

Uncle Emilio is an “old scoundrel”, a “freemason", a "Huguenot”. My father, a responsible man and a respected physician,  lavish in epithets applied to his brother-in-law and sworn enemy. In his mind the yearned and welcomed image of a dead and buried Emilio, with a garlic cloves necklace strung around his neck and a stake driven through his heart is embedded and cherished. He could easily break his Hippocratic Oath, just to indulge himself.

 

“Uncle Emilio is not socially acceptable”, says my older brother, always anxious to keep his territory free from people who can eventually ruin his vacuous image of middling, soft, lame and undecided bourgeois.

 

“Emilio is irresponsible, an adulterer, a liar and a cheater”, retorts Matilde, his former wife. She plays divinely the role of spiteful spouse, who doesn’t notice – or doesn’t want to notice – that the very same adjectives describe her beautifully.

 

“Uncle Emilio doesn’t deserve your respect”, my mother, the family’s politician, says convincingly, “... he is not ideologically coherent. He fought against fascism, I give you that but he came dangerously close to the centre. He never belonged to any party, doesn’t commit. That way you won’t win anything. Especially now, when we move towards an increasingly frightening conservatism.”

 

My grandmother was a romantic, who dreamed of constant adventures. She stayed home taking care of the countless children she had with a husband who was a paragon of virtue and an unrepentant bore. To that son she gave the name of her hero, Emilio Salgari, the writer from Verona who, like her, travelled little, imagined everything, and made her wander through the South Seas and the Wild West with the strength of the words she read aloud so the sound would rebound magically in her head, summoning the smells, the temperatures, and the hardships of escapades without return. Uncle Emilio does justice to his glorious name: a restless anarchist, a ravishing lover, an ocean’s privateer, a tireless traveller, a smart guy who knew how to juggle the swings of an ever changing world. As watchful as a bird of prey,  rational and wise as Merlin, strong and restless as a leopard, he is the quintessence of  man. Nature has been fair to him, one of those slips that happen once in a while even in that merciless conjunction.

For Emilio there are no absolute truths. He enjoys questioning everything with a unremitting sturdiness, little appreciated by those that surround him. At college, the students loved him for his eccentricity, but feared his fierce reasoning that made them feel lost, paddling in the middle of the vast ocean in a rowboat – without oars.

Uncle Emilio’s gods are Bakunine, Burroughs and Bukowski, the three B's of “bounty”, “beauty” and “brawl” – in more enthusiastic days, Bellow and Beckett join the highs of Olympus  –  and although I do not share his eagerness, I like to hear him talk about Ovid’s metamorphosis, the study of the Lepidoptera, Ophelia’s skull and Montaigne’s misanthropy, all the infinite questions and puzzles that form the inexhaustible absurdity of life.

Uncle Emilio enjoys telling stories and anecdotes, especially jokes about old geezers, men and women. For him, old age is just a silly game of the poorest taste. He laughs. And hums: “Life is a tale. Told by an idiot...”

“... full of sound and fury, Signifying nothing ...”, I reply willingly.

“A - men”, he rejoins hastily with a sly smile.

Both my father and mother – one for being Catholic, another for being a communist – like to declare, to demonstrate, to insist that everyone should live this or that way. Following the call of God, or the bidding of the party, there is a well tarred road, flagged and surrounded by beautiful white strips. Emilio’s shortcuts, detours  and fast highways don’t appeal to them, not in the least.

 

Emile had a son who died in Africa. In the Colonial War.

“A hero!”, says the family.

“An idiot”, says Emilio, his face clenched, “a perfect idiot”... It’s been over forty years.

 

The stories and anecdotes ensue in a flurry of his favourite subjects: rest homes, (“what the hell of a name! Who wants to rest, at the time of life?”), graveyards, funerals, senior sex, Viagra, lingerie, humiliations. I laugh, while he burrows through his theatre of the absurd: he grimaces, speaks with a ragged breath – “like the old guys” – rehearses death throes, makes obscene gestures, dances, drinks. For him, death is an “amusement park in another dimension.”

 

(“Please don’t let they reduce me to ashes. I want to convey with the worms”.)

 

It’s like watching a Monty Python’s movie, with a little help from Tarantino.

 

Uncle Emilio’s apartment is in Lisbon, a ground-floor littered with books in an ordinary building from the forties. Now it is considered an affluent area, rents increased and an invisible landlord wishes acutely that Uncle Emilio dies at his earliest convenience as imposed by such a sensitive matter. The backyard is our favourite haven. All the neighbours can see us from the buildings in the block, they just have to peep through their windows. This happens often.

 

Roof cats of all colours and shapes come purring and rubbing against our legs. The courtyards of the other houses show the care of their inhabitants: plants, pots, decks, awnings, useless objects. In my uncle’s yard there are only two broken plastic chairs, a plate of food and a bowl of water for the cats, and a crate of beer eternally replenished and used to support our feet. The umbrella I bought him to give us some privacy is a disgrace, looks like a scarecrow, because he forgets to close it on stormy days. Uncle Emilio’s yard doesn’t look that good. When it rains weeds erupt everywhere, between the cracks in the broken mossy and slippery slabs. In the summer they become grey and overheated. The neighbours don’t like it. They look down, they grimace and then shut the windows with a bang . Uncle Emilio’s minimalism gets on their nerves.

 

It was the neighbours who called Welfare. Uncle Emilio’s takes a radio-recorder to the yard, inserts a cassette of the soundtrack of Zorba, the Greek and dances around naked, drinking and singing. The complaints ensue. Yesterday, when the bell rang, Emilio opened the door and three thugs jumped on top of him and began beating him up. It’s easy to beat up an old man. It’s a children’s game to do away with an unbearable, noisy and lonely old guy. It’s great fun barging inside the house, and start kicking and punching a fool. Everyone knows that old people live from charity and are good-for-nothing. That old geezer should stay quietly indoors, instead of giving a show and annoying people.

"This old shit is a nobody, just books and papers, the motherfucker! An old fag that undresses in front of good people, is someone who wants his ass kicked!"

 

(A few more minutes, and we can take his television and mobile phone.)

 

 But things didn’t go as planned: Uncle Emilio’s tough body, smeared with Pizbuin, slipped from their huge hands and he escaped like an eel into the bedroom. When they broke down the door he was waiting for them , shouting like a raged Rambo with a samurai sword in one hand, and a Colt Anaconda revolver in the other. He shot into the air and moved forward, sword in hand. He teared the arm of the most undeterred, ignored the one who threw himself to the floor crying, and chased the third up the street with his sword drawn up in the air like some crazy monster from another planet. The neighbours appeared and rounded, ready to lynch him, when the emergency team arrived. Uncle Emilio had already disappeared into the night.

 

The “good people” in my living room are certain that he will be arrested. The good people in my living room are outraged. They want Uncle Emilio to be “looked for good”. They want to watch him closely. Naturally it is for his own heavenly good hey . They want to make a good man out of him, a good citizen. They want him to be a nice old man, a peaceful old man in a corner of a nice, smelly asylum. They are very good people, very serious people, with certainties well ingrained.

 

I return from the kitchen and say adamantly that I don’t know were Uncle Emilio’s might be, nor do I wish to know. I ask them politely to get out and leave. They do it, they have no other choice.

 

I close the door on the back of the good people, the lady with the hairspray and the lad with the black suitcase. I return them to the street, where they will continue searching for Uncle Emilio. I climb the stairs and walk into my bedroom. Uncle Emilio is lazily sprawled on my bed in his underwear and boots, zapping furiously through the porn channels. The dog is asleep leaning against his thigh.

I laugh softly and shut the door quietly. We understand each other, me and him. The living room couch waits for me. Who knows for how long?

 

December, 2012

Translated from the portuguese by Maria João Freire de Andrade

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